5 de mai de 2018
Por Lizi Reis

INFIEL - A HISTÓRIA DA MULHER QUE DESAFIOU O ISLÃ / AYAAN HIRSI ALI

Título: Infiel - A história de uma mulher que desafiou o Islã
Autora: Ayaan Hirsi Ali
Gênero: Autobiografia/Drama
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 512
Avaliação: 5/5
Sinopse: Autobiografia de uma mulher extraordinária, que foi criada nos costumes tribais da Somália, sofreu mutilação sexual e espancamentos brutais na infância, foi muçulmana devota, fugiu de um casamento forçado, tornou-se deputada na Holanda, clamou pelos direitos das muçulmanas, criticou Maomé e está condenada à morte pelo fundamentalismo islâmico.


Em novembro de 2004, o cineasta Theo van Gogh foi morto a tiros em Amsterdã por um marroquino, que em seguida o degolou e lhe cravou no peito uma carta em que anunciava sua próxima vítima: Ayaan Hirsi Ali, que fizera ao lado de Theo o filme Submissão, sobre a situação da mulher muçulmana. E assim essa jovem exilada somali, eleita deputada do parlamento holandês e conhecida na Holanda por sua luta pelos direitos da mulher muçulmana e por suas críticas ao fundamentalismo islâmico, tornou-se famosa mundialmente. No ano seguinte, a revista Time a incluiu entre as cem pessoas mais influentes do mundo. Como foi possível para uma mulher nascida em um dos países mais miseráveis e dilacerados da África chegar a essa notoriedade no Ocidente?



Em Infiel, sua autobiografia precoce, Ayaan, aos 37 anos, narra a impressionante trajetória de sua vida, desde a infância tradicional muçulmana na Somália, até o despertar intelectual na Holanda e a existência cercada de guarda-costas no Ocidente. É uma vida de horrores, marcada pela circuncisão feminina aos cinco anos de idade, surras freqüentes e brutais da mãe, e um espancamento por um pregador do Alcorão que lhe causou uma fratura do crânio. É também uma vida de exílios, pois seu pai, quase sempre ausente, era um importante opositor da ditadura de Siad Barré: a família fugiu para a Arábia Saudita, depois Etiópia, e fixou-se finalmente no Quênia.



Obrigada a frequentar escolas em muitas línguas diferentes e a conviver com costumes que iam do rigor muçulmano da Arábia (onde as mulheres não saíam à rua sem a companhia de um homem) à mistura cultural do Quênia, a adolescente Ayaan chegou a aderir ao fundamentalismo islâmico como forma de manter sua identidade. Mas a guerra fratricida entre os clãs da Somália e a perspectiva de ser obrigada a casar com um desconhecido escolhido por seu pai, conforme uma tradição que ela questionava, mudaram sua vida e ela acabou fugindo e se exilando na Holanda. Ayaan descobre então os valores ocidentais iluministas da liberdade, igualdade e democracia liberal, e passa a adotar uma visão cada vez mais crítica do islamismo ortodoxo, concentrando-se especialmente na situação de opressão e violência contra a mulher na sociedade muçulmana.

A segregação se inscrevia em cada detalhe da vida cotidiana.


Esta autobiografia de uma mulher somali nascida prematura e abaixo do peso num país onde as mulheres eram/são, por conta de um livro sagrado, obrigadas a prestar obediência absoluta à Alá e aos homens (nada de igualdade) é incrível! Para mim merecedor de 5 estrelas e se tornou um dos meus favoritos.

Éramos muçulmanos na casa de Deus, uma coisa bonita. Aquilo tinha um não-sei-quê de intemporalidade. Creio que esse era um dos motivos pelos quais os muçulmanos acreditam que islamismo significa paz: porque em um lugar amplo e fresco, cheio de amabilidade, a gente se sente mesmo em paz.

A sua infância é totalmente perturbadora de ler, apesar de parecer ser um pouco melhor do que a das outras somalis. Foi muito difícil ler coisas que para mim não condizem com uma realidade, coisas impossíveis de serem imaginadas no meu cotidiano, como ter que decorar a genealogia, aprender a suportar tudo do marido, ter que sofrer a clitorectomia (que parte!!!), entender o que significa ser estuprada, saber que tudo que ocorre é por culpa da mulher, que uma mulher sozinha no país é considerada como uma prostituta, os ônibus segregados, etc. A verdadeira muçulmana devia cobrir o corpo até na frente de um cego, até dentro de casa, não tinha o direito de andar no meio da rua, não podia sair da casa paterna sem autorização. Quando elas estavm menstruadas, não podiam rezar nem tocar no Alcorão, todas as moças se sentiam culpadas por sangrar a cada mês, era a prova de que valiam menos do que os homens.

Ser estuprada era muito pior do que morrer, pois sujava a honra de todos os membros da família.

O relacionamento de Ayaan com a mãe é intrigante, e o de Ayaan com o pai mais ainda, o fato dela conseguir perdoar tudo que o pai faz e sempre o colocar num pedestal é de fato um ato "bonito", mas também deixar a mãe desamparada é um ato irritante.

notei pela primeira vez que, no fundo, minha mãe gostava muito de mim; todos aqueles maus-tratos não visavam a mim propriamente, e sim ao mundo que lhe negava a existência a que ela tinha direito.

Achei o livro bem detalhado e a questão política bem relevante. Apenas me confundi com tantos nomes e muitas vezes muito parecidos...

Se Deus era misericordioso, por que os muçulmanos precisavam fugir dos não muçulmanos — e até atacá-los para instituir um Estado fundamentado nas leis de Alá? Se Ele era justo, por que deixava oprimirem tanto as mulheres?

O livro contém muitos finais trágicos para alguns personagens. Livro mais do que chocante que nos mostra que a partir da leitura e do conhecimento podemos nos libertar de uma jaula que muitas vezes nem percebemos. E Ayaan conseguiu encontrar a sua bússola moral dentro de si mesmo e não em um livro sagrado. Merece ser lido!

Diziam que nós mulheres estávamos em poder de forças invisíveis que brincavam com a nossa mente e nos faziam oscilar entre um estado de espírito e outro completamente oposto. Por isso Alá ordenava que o depoimento de duas mulheres eqüivalesse ao de um homem, por isso elas não tinham condições de governar ou assumir cargos públicos: a liderança exigia contemplação e julgamento conscientes, o que só se alcançava mediante reflexão cautelosa. As mulheres careciam delas por natureza. Éramos volúveis e irracionais, de modo que convinha que os nossos pais ou outros guardiões machos decidissem com quem íamos passar o resto da vida.

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