13 de set de 2018
Por Hugo Vinicius

Crítica: A Freira - É Ruim, Mas é Bom


                                                            ''Nossa, esse strogonoff tá ótimo, Cleide!" 
                                                            "Que bom que gostou, amiga, mas era lasanha"

Só se fala de A Freira (The Nun, no original) por esses dias. Esse derivado enlatado da franquia de terror  iniciada por Invocação do Mal (The Conjuring, de 2013) se tornou um fenômeno nas últimas semanas, consagrando-se o maior filme de toda a franquia - que ainda conta com os filmes da boneca Annabelle - em termos de bilheteria. Posso dizer que A Freira é o maior filme sobre uma irmã consagrada  fazendo loucuras num convento desde a época das Mudanças de Habito (Sister Act, 1992 e 1993) de Whoopi Goldberg nos anos 90. Como terror eu já adianto que não é lá essas coisas, mas ruim, meus amigos, também não é. Vamo comigo!

Quem é ligado no mundo dos filmes de terror sabe que a tal Freira é um monstro criado pelo diretor de todo este universo de terror de Invocação do Mal que é o ótimo James Wan (das franquias Jogos Mortais e Sobrenatural). Ela era nada mais que isso: o monstro do segundo filme. Mas como a indústria reage aos memes de vocês e a tal freira era tão assustadora que até pegadinha do Silvio Santos ela virou, resolveram criar uma história em volta dela para fazer uma graninha. Parece que deu certo.

Pois bem, na trama, num convento medieval na Romênia com um passado obscuro, o estranho suicídio de uma freira desperta a atenção do Vaticano. O Alto Clero, por sua vez, envia um padre especialista em investigar coisas estranhas para a Igreja, Padre Burke (o oscilante e desconhecido ator mexicano Dimén Bichir) e a noviça Irene, interpretada por Taissa Farmiga, irmã da estrela de Invocação do Mal (Vera Farmiga) e tão talentosa quanto irmã mais velha. Para guiá-los até o estranho convento, há o galante Frenchie (o belga Jonas Bloquet, que interpreta bem o papel de fanfarrão que lhe cabe, embora seu personagem, como um todo, esteja sobrando o filme todo).

Pronto, o filme é isso. Adicione a esta descrição muitos bichos feios, sustos previsíveis, gritos inesperados, névoa no chão, corvos e um castelo sinistro abandonado e você terá um filme de terror bastante medíocre e igual a outros mil que você já viu. Enquanto qualidade de terror, de provocar medo, o filme está fora do tom do que se tem feito hoje em dia com o terror psicológico e tenso como nos recentes sucessos de crítica A Bruxa (de Robert Eggers, 2015) e Hereditário (de Ari Aster, 2018). Mesmo dentro da própria franquia que o originou, a produção está muito longe de alcançar o patamar dos dois primeiros longas de Invocação... (Só não é pior do que Annabelle de 2014, porque para ficar pior do que esse tinha que se esforçar muito)

Nestas horas vemos como a mão do diretor faz diferença. Nenhum dos spin-offs de Invocação... são dirigidos pelo criador James Wan - que atua apenas como produtor e às vezes roteirista como agora - e, não por acaso, nenhum deles chega perto dos originais. A direção desta vez é do premiado porém desconhecido Corin Hardy que aqui, vacila entre momentos visualmente muito criativos e escolhas óbvias e bregas - principalmente quando tenta fazer graça -  sem ter uma assinatura muito linear.

Mas não se engane, eu adorei o filme! Eu escolhi despejar tudo de ruim que há na produção para que esta crítica possa ser só amor daqui para frente. Muito embora seja um terror muito do safado, ele acaba sendo uma aventura muito interessante. Tudo que o longa erra em assustar e afligir o espectador, ele ganha com uma mitologia muito envolvente e bem construída, ambientado num lugar instigante e com personagens quase sempre bem escritos. Na prática A Freira é uma aventura gótica embebida em catolicismo. Não pude deixar de comparar a obra com outro sucesso com as mesmas características que eu particularmente gosto muito: Constantine, de 2005 com o astro Keannu Reeves.

A estrutura é praticamente a mesma. Temos uma atmosfera gótica, repleta de mitologia judaico-cristã e um casal de protagonistas caçando demônios usando relíquias sagradas. Se for encarado desta forma, o filme fica realmente divertido. Há orações em latim, relíquias de Cristo, templários, possessões, água benta para todo lado, fogo sagrado, exorcismo... tudo que uma boa aventura gótica precisa. Não posso deixar de mencionar aqui, ainda que  desagrade alguns, que o filme têm  uma preocupação - perdoem-me o trocadilho - religiosa com a Doutrina Católica. Há um respeito e uma fidelidade que raramente vemos em filmes de terror do tema. Mesmo na mais fantasiosa das sequências, o filme se preocupa em fazer de um jeito que se o Papa visse iria se sentir representado - e neste aspecto lembra muito O Ritual, com Anthony Ropkins, de 2011. 

Enfim, eu escolhi encarar A Freira como um filme de aventura e consegui me divertir muito, do contrario seria um dinheiro de cinema desperdiçado. Claro que se você for como a Tia Cremilda que leva susto toda vez que o telefone toca, você vai se assustar - o que vai fazer o filme ser ainda melhor para você, já que a intenção era essa - mas não vá preocupado com isso. A Freira mirou no que viu e acertou no que não viu, mas grandes boas coisas da humanidade também foram descobertas por acidente. Como dizem no filme "Finit Hic Deo". Não entendeu? Vai lá assistir!

Coeficiente de Rendimento: 3,5/5

Comentários via Facebook

1 comentários:

  1. Olá Hugo!!!
    Eu estou com uma certa expectativa pelo filme, mas todo mundo está me falando pra encará-lo como não filme de terror e de certa forma agradeço porque sou medrosa horrores ainda nem sei como vi o "Invocação do Mal" kkkkkkk
    De todo modo adorei que você apontou os pontos positivos do filme e o que o mesmo conseguiu atingir os pontos que não almejava mais que fez ele valer a pena ^^

    lereliterario.blogspot.com

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