12 de out de 2018
Por Hugo Vinicius

Crítica: A Primeira Noite de Crime - ainda vale o ingresso

Cada filme renova a coleção de máscaras perturbadoras pro Halloween

Não, eu não assisti Venom. Vocês ainda não compartilharam isso aqui o suficiente para que eu veja os filmes de graça, então eu me recusei a gastar com um filme do homem-aranha sem o homem-aranha. Todavia, o filme que eu assisti, e agora venho falar um monte sobre, é o quarto capítulo de uma franquia amada por muitos e ainda injustamente desconhecida por alguns. Atual, inteligente e divertida, a franquia The Purge (Uma Noite de Crime, nacionalmente) chega ao seu mais recente episódio com discussões ainda relevantes, mas já dando bons sinais de esgotamento. Vamos  juntos ao passado daquele mundo cagado tentar entender como foi A Primeira Noite de Crime (The First Purge, Gerald McMurray 2018). Só vem!


A franquia de The Purge começou em 2013 com o excelente primeiro filme. Ainda sendo disparadamente o melhor, Uma Noite de Crime (de James DeMonaco, 2013) contava a história e uma família rica dona de uma abastada empresa de segurança privada que se preparava para passar a "noite do expurgo" - período de 12 horas em que absolutamente qualquer crime poderia ser cometido sem nenhuma responsabilização. Naquela trama, estrelada por Ethan Hawke e Lena Headey - a Cersei de Game of Thones - acompanhamos o desespero da família dentro de casa que está sendo invadida por assassinos. 

Sua sequência direta Uma Noite de Crime: Anarquia (2014) ainda contava com o mesmo diretor e seguiu caminhos inteligentes e simples de roteiro ao trocar o cenário da história. Se antes vimos o terror de uma família isolada em sua casa, agora fomos colocados nas ruas com pessoas que não conseguiram se abrigar a tempo, e terão que passar a noite inteira tentando sobreviver no caos.
O terceiro longa, de subtítulo O Ano da Eleição, aprofunda mais a mitologia e nos faz entender melhor como funciona esta política insana da noite do expurgo. Pela primeira vez repete personagens anteriores e nos apresenta personagens tentando acabar com este sistema, por diferentes meios e métodos e que - por isso - são os alvos do filme.

Embora seja uma franquia de suspense e ação - muito competente - Uma Noite de Crime sempre chamou atenção pelo seu contexto e crítica social. Nos filmes, a sanguinária e impensável noite do expurgo é uma política de governo que, segundo seus defensores, é a grande responsável por uma drástica queda na pobreza, na criminalidade e na agressividade do povo americano. Aos poucos ao longo de cada produção vamos entendendo melhor as raízes por trás dessas estatísticas . Há uma crítica perfeita sobre a nossa própria sociedade quando vemos que os ricos, brancos privilegiados amam o expurgo, pois tem dinheiro para se isolar ou comprar caríssimos sistemas de segurança. Ao passo que os pobres se protegem como podem dos loucos que saem nas ruas para exterminá-los. O que há, na prática, é uma política de genocídio dos mais pobres, exagerada ao extremo como só o cinema sabe fazer, com toques de sadismo, violência e perversão, mas ainda assim, um reflexo dos nossos tempos - quando se olha com atenção, não é muito diferente do rico que não se importa que se entre atirando em favelas ao custo das vidas de inocentes, afinal, não é o mundo dele.

Esta crítica social começa sutil e precisando ser notada no ótimo primeiro filme - e por isso é meu favorito até hoje - e vai ficando cada vez mais exposta nas sequências. Eu sempre gosto mais quando uma produção me dá meios para perceber  por mim mesmo algo que ela quer me dizer dizer. O subjetivo sempre foi o maior apelo da arte no meu entender. Talvez por isso eu nunca tenha achado as sequências superiores ao filme de 2013. Ao aprofundar a mitologia - o que não é um erro - foi-se deixando cada vez menos espaço para a imaginação do espectador e agora, em seu quarto produto, não sobrou nada que nós já não soubéssemos daquele mundo. 

Preciso mencionar que o novo diretor Gerald McMurray tem plena noção deste esgotamento e quase não perde tempo com os motivos que levaram a se ter o primeiro expurgo do título. Se limita a dar algumas explicações técnicas e parte para ação - mesmo o suspense não é lá muito empregado aqui. Por isso, este talvez seja o mais fraco da série em termos de narrativa - eu tendo a achar que O Ano da Eleição é o "menos bom" geralmente - mas o que McMurray perde em contexto, sobra em ação. O filme traz protagonistas bem interessantes e bons de porrada e caba sendo um filme muito divertido em meio a toda aquela atmosfera surreal e assustadora que está presente em toda franquia.

Este texto foi mais uma celebração aos filmes de Uma Noite de Crime do que propriamente uma cítica do filme mais recente. Cada um deles funciona sozinho, sem que se precise ver o anterior ou o próximos, mas cada um deles tem o que dizer. Se sua Tia Cremilda não gosta de violência, nem tente. Este e todos os outros pesam a mão em mostrar coisas horríveis acontecendo bem na sua cara. Mas se você gosta de tensão e de uma boa crítica social, pode escolher qualquer exemplar da franquia e sair de lá com sua cabeça explodindo. A Primeira Noite de Crime estreou nos cinemas brasileiros no dia 27 de setembro e ainda pode ser encontrada em algumas salas perto de você. Vale a pena.

Coeficiente de Rendimento: 3,3/5

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