23 de jul de 2019
Por Hugo Vinicius Pereira

Crítica: O Rei Leão (2019)

O avanço tecnológico é uma ferramenta que sempre esteve a serviço da arte, sobretudo do cinema. Da invenção da câmera à adição de som, e depois cor, vimos a nossa maneira de contar histórias evoluir obra a obra através das décadas. Branca de Neve e os Sete Anões (1937), inovou sendo o primeiro longa animado, com uma técnica nova de adicionar pinturas reais a cenários animados e fazendo de seu filme um deslumbre de fantasia; Toy Story (1995), após anos de animação tradicional, revolucionou nossa forma de ver filmes com a animação computadorizada 3D, seguindo, também a tendência de contar histórias para crianças e adultos inaugurada pela maior animação daquela década, a adaptação de Shakespeare conhecida como O Rei Leão (1994) - se você não sabia, tente ler Hamlet e não reconhecer Musafa, Simba e companhia. Agora, em pleno 2019, O Rei Leão ganha uma nova cara e eu quero discutir com você se dessa vez ainda dá pra dizer que a tecnologia é mesmo essa amigona da arte que eu falei. Pegue a sua querida fita verde empoeirada, vem comigo e Hakuna Matata!


O Rei Leão estreou (18/07) e muita gente por aí mais odiou do que amou. A animação original é um dos maiores sucessos da Disney até hoje e de extrema importância para toda uma geração - inclusive para mim, muito mesmo - e ainda segue sendo importante. Tendo envelhecido muito bem, é comum que aqueles que viram quando pequenos e chegam agora à vida adulta ainda apresentem a jornada de Simba a seus filhos, irmãos, sobrinhos... - eu obriguei todos os meus irmãos que nasceram pós anos 2000 a assistir. Tal relevância e qualidade ainda em vigência abriram o questionamento de se realmente valeria a pena refazer O Rei Leão apenas por uma espécie de ganância do estúdio - afinal, não é como se a Disney precisasse de mais dinheiro. Bom, a casa do Mickey não deu muita bola para esse mimimi e seguiu com sua tendência de remakes de seus clássicos - que acabou de nos dar de novo Aladdin não tem muito tempo - dando ao responsável por outro remake, Mogli - O Menino Lobo (de Jon Favreau, 2017) a chance de nos embasbacar com o que o poder do dinheiro e de bons processadores é capaz de fazer com aquele desenho 25 anos depois do original.

Embasbacante é. Chega a ser difícil para o espectador distinguir a animação computadorizada da realidade, chegando a ponto de parecer um documentário de natureza selvagem - bem na linha Animal Planet ou, por que não, Globo Repórter. Isso deslumbra nossos olhos e desafia nossa percepção, mas ao mesmo tempo, tira uma característica essencial a uma história em mídia visual: a expressão. O filme poderia sim ter feito os personagens um pouquinho mais expressivos - nem precisava muito não - mas opta pelo Realismo absoluto. Se lindo por um lado - ver as cenas clássicas refeitas é emocionante - por outro, torna muito difícil a identificação do espectador com a trama.

Nós, humanos, somos programados biologicamente para nós reconhecer e nos associar. Sentimentos como compaixão, empatia, raiva e medo são milhões de vezes mais possíveis de serem alcançados quando nos reconhecemos em quem estamos vendo - é um narcisismo biológico mesmo. Não por acaso costumamos ver fábulas e animação com animais e outras criaturas com formas e expressões humanizadas. Mesmo quando muito diferentes - como é o caso de monstros, aliens ou animais - ao menos as expressões e linguagem corporal são humanizadas. É justamente essa importante característica que se perde em O Rei Leão - e faz muita falta!

Bicho não ri, não se surpreende, não fala, não dissimula emoção. Além disso, piora quando vemos que o Realismo alcançado na produção é tão profundo que nós estranhamos muito quando eles falam e -eventualmente e principalmente - cantam. Por melhores que as dublagens sejam, a voz não casa, não há uma boca e uma face cheia de articulações para demonstrar em tela a mesma emoção que estamos ouvindo na voz.

Outro problema é a escala das coisas. Nos clipes e nas cenas mais marcantes - como naquela cena com Mufasa - temos a impressão de haver poucos animais em relação ao que víamos na animação original e o resultado fica parecendo pobre. Fora, preciso mencionar, que para nós - me desculpem alguns - bicho é tudo igual e eu perdi as contas de quantas vezes confundi quem era quem entre os leões e hienas - entre as leoas então eu vi cenas inteiras achando uma coisa e era outra.

Preciso dizer, porém, que mesmo com tudo isso, eu gostei do filme. Sou um purista sim do filme de 1994, mas fui capaz de me divertir e emocionar genuinamente com o novo. Um destaque importante a ser feito é ao vilão Scar e aos gaiatos Timão e Pumba. Ambos se destacam muito de todos os outros, funcionando plenamente e sendo competentemente ameaçador e divertidos respectivamente.

Acaba que, ao final, o novo O Rei Leão não é um filme ruim - na verdade é até bom - mas perde muito na avaliação por não ser capaz - não chega nem perto - de marcar esta geração como o original marcou a anterior. Mesmo depois deste, eu, você e nossa Tia Cremilda, quando quisermos mostrar O Rei Leão para alguém que nunca viu, ainda vamos mostrar o saudoso desenho de 1994 - Beyoncé que me perdoe.

Coeficiente de Rendimento:  3,7/5,0


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